sexta-feira, 6 de novembro de 2026

A viagem que minha irmã guardou

Gutemberg bebê no colo de Betânia, diante das bananeiras.

Foto de família: Gutemberg no colo de Betânia, c. 1983.

Minha primeira viagem chegou até mim pela voz de minha irmã. Eu tinha dois ou três meses. Betânia guardou o caminho quando eu ainda não sabia guardar lembranças.

Minha mãe estava havia uma semana na cidade, fazendo um curso. Meu pai decidiu me levar até ela, e minha irmã foi junto. Do Baixão a Santo Antônio, eram cerca de nove quilômetros. Seguimos a pé, eu nos braços dela durante a maior parte do percurso.

À frente ia o jumento, com uma carga que meu pai levara para vender. Ele segurava a corda, receoso de que o animal disparasse. Por isso não nos pusera na montaria. A carga seguia no lombo; eu, no colo.

De vez em quando, meu pai me carregava. Quando a corda passava às mãos de minha irmã, o jumento quase a arrastava. Anos depois, ela ainda ri ao contar aquela pressa. No relato, o riso vem perto do cansaço.

Houve uma parada. Meu pai amarrou o animal, e eles se sentaram para descansar, suados. Eu dormia e acordava, segundo ela. Não sabe dizer se chorei. Lembra que me levou.

Chegamos à casa de Dalzira, onde minha mãe estava hospedada. Ao saber da caminhada, ela reclamou da carga, da escolha do animal, daquele esforço todo. Minha irmã chegou com o braço tão cansado que mal conseguia esticá-lo.

É um detalhe pequeno para quem mede viagens no mapa. Na história que recebi, porém, aquele braço ocupa quase todo o caminho.

Quando Betânia conta, também reaparece o bananal atrás de casa. As bananas davam para comer, vender, repartir. A saudade dela alcança essa fartura, o verde que se avistava da ladeira, os irmãos de quem cuidou.

Escuto sua história e encontro um começo meu que ficou com ela. Não posso recordar a estrada, a parada, a chegada. Posso escrever o que minha irmã preservou: meu pai segurando a corda, o animal puxando, eu adormecendo e acordando em seus braços.

Minha primeira viagem continua chegando pela voz dela.

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