quinta-feira, 18 de setembro de 2025

Chuva do cajú

 



Cai a primeira gota,
um sino de água batendo na pele da cidade.
Palmas suspira: o pó levanta voo em pequenos pássaros
e volta ao chão como quem encontra o próprio nome.

É a chuva do caju*, a que floresce antes do tempo das águas,
abrindo em sinos brancos as bocas das árvores,
um anúncio de colheita escrito a céu aberto,
com vogais de vento e consoantes de relâmpago.

No finzinho do estio, tu chegas
com cheiro de terra recém-lembrada,
e eu te vejo, teus olhos são nuvens que se aproximam,
teu riso, o estalo doce do primeiro trovão.

As ruas bebem; os jardins se acendem de verde molhado;
o varal canta seu chocalho de pingos,
e nos quintais, as formigas carregam estrelas de açúcar
enquanto o coração da cidade desacelera no compasso da água.

Dizem os antigos: quando o caju floresce, a chuva visita.
E hoje ela bateu à porta, leve e certa,
trouxe contigo o rumor das safras, a promessa da polpa,
o lume âmbar do mel em nossas mãos.

Caminhamos pela tarde de setembro
como quem caminha por dentro de um fruto:
a casca é o céu cinzento, o suco é esse cheiro que nos segue,
e a castanha, escura e pequena, é a semente do que não dizemos.

Teu cabelo guarda gotículas, sinos mínimos,
cada um chamando meu nome num idioma vegetal.
Beijo teu ombro e penso no pomar inteiro inclinando-se
para ouvir a canção que se escreve entre teus cílios.

Não é ainda a estação das águas, eu sei:
é um prenúncio, um gesto, um começo de música.
Mas basta.
Basta esse fio de chuva para costurar nossos passos,
para lavar a poeira das promessas,
para plantar um outono de luz nos teus lábios.

À noite, Palmas brilha em poças,
constelações de rua, pequenos Tocantins espalhados.
Do galho, o caju pendura sua lâmpada rubra,
e nós, de mãos dadas, bebemos o ar
como quem sorve o primeiro vinho da safra.

Chove mais um pouco.
Meu nome cabe no teu, como a castanha no fruto.
E a cidade, em silêncio de chuva,
aprende conosco a pronúncia do que retorna: amor,
colheita,
setembro.

_____________
*A "Chuva do Caju" é um fenômeno meteorológico e culturalmente significativo no estado do Tocantins, Brasil. Caracteriza-se pelas primeiras chuvas que ocorrem no final do período de estiagem, geralmente entre o final de agosto e o início de setembro, coincidindo com a floração dos cajueiros. Embora não marque o início oficial da estação chuvosa, é um evento muito celebrado pela população local, pois simboliza o fim da seca, a renovação da natureza e a promessa de uma boa colheita de caju, um fruto emblemático da região. A expressão é amplamente utilizada no discurso popular e reflete a profunda conexão entre o clima, a agricultura e a identidade cultural tocantinense.


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